quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Antecedentes à Tomada de Montevidéu: 15 a 19 de Janeiro de 1817


Por altura das acções de Arapeí e Catalán, nos primeiros dias do ano, o tenente general Carlos Frederico Lecor e o grosso da Divisão de Voluntários Reais, com a excepção dos cerca de 400 efetivos destacados na coluna do Centro, estavam acampados em San Carlos e Maldonado, na extrema esquerda da linha que se extende das Missões, pela fronteira e terminando no Atlântico. Já há 3 semanas (após a ação de Sauce) que ali permaneciam. A paragem da DVR nesta área, na margem esquerda do arroio de Sauce, deveu-se fundamentalmente à junção com a Marinha e a concentração de forças para a aproximação a Montevidéu, apenas a 140 quilómetros.
Concertado com Lecor, desde o início de janeiro que a divisão naval ligeira do capitão de mar e guerra Conde de Viana, D. João Manoel de Meneses, bloqueava Montevidéu, desde a fragata Calipso. 

Os Muros de Montevidéu
Miguel Barreiro
A 5 de janeiro, um dia depois da derrota em Catalán, José Artigas escreve a Miguel Barreiro recomendando o abandono da praça e a a destruição dos muros. Artigas tinha recebido nesse dia informações da batalha por dispersos. Uma ordem semelhante já havia sido dada em dezembro, tendo dias depois determinado que seriam Barreiro e o Cabildo a decidir. Estes eram contra então como agora.

Esta mesma questão já se tinha posto em dezembro, quando Barreiro desabafando por carta a Frutoso Rivera, informa que Artigas havia dado a ordem de destruição dos muros para que não aproveitassem aos portugueses, tendo enviado depois uma contra ordem para que fosse o Cabildo a decidir, sendo que o Cabildo decidiu pela não destruição seja o que for na praça.


Pan de Azúcar e a Estrada de Montevidéu
Logo após a reunião com a Coluna do Centro, sob o comando do brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto, a 15 de janeiro em Pan de Azúcar, que tratamos noutra postagem, o general Lecor decide avançar com todas as suas forças sobre Montevidéu.

“(...) marchei de S. Carlos no dia 14, tendo dado ordem ao Exc. Conde de Vianna Commandante da Esquadra de Sua Magestade para hir com os Navios effectuar o desembarque da Artilharia grossa; o Trem do Sitio na Praia de Busseu, e estreitar o Bloqueo do porto de Monte Video; e feito previamente hum movimento da Collunna do Commando do Brigadeiro Silveira de Minnas para o Pam de Assucar, pude illudir o Innimigo com esta marcha a respeito do avançamento das outras tres Collunnas do Commando dos Generaes - Pinto, Aviles, e Pizarro, com as quaes cheguei no dia 15 ao Campo do Pam de Assucar, e logo com todas as Forças reunidas [continuei] a avançar, avistando algumas pequenas Partidas Innimigas, que apennas fizeraõ hum ligeiro tiroteio com as minhas avançadas em alguns Pontos, retirando se sempre sobre as Troppas de Fructuoso Ribeiro.” (Carlos Frederico Lecor ao Marquês de Aguiar, 27/1)

Solis Chico
Segundo Tomás Burgueño, bombeiro oriental que informava regularmente Montevidéu, às 10 horas de 17 de janeiro, as avançadas portuguesas atingiam já o arroio de Solis Chico, a 50 quilómetros da capital.

“Por esta, participo á V E q.e el exercito enemigo todo reunido pasa en marcha p.a montev.e todo reunido pues las abansadas llegan lla á Solis Chico pues Yo no me separo un quarto de legua de la vista de ellos y otras veses á tiro de fucil p.' benir observando los movimientos de ellos.” (Tomás Burgueño a Miguel Barreiro, 17/1)

Burgueño, possivelmente tenente, à altura, documenta com zelo os movimentos do inimigo para o delegado Miguel Barreiro, que tem assim a noção exata da localização do inimigo português. As forças orientais pouco mais podiam fazer, tendo em vista as forças enormes que se aproximavam, próximas dos 4 mil homens, entre a DVR e várias unidades do Exército do Brasil.

No dia seguinte, 18, o grosso das forças portuguesas chega, segundo o Contemporâneo Oriental (1830), que muitos propõem seja o próprio Frutuoso Rivera, a um local chamado Chacarita de Los Padres, que não consigo localizar hoje, mas que seria próximo do arroio de Los Padres, entre Soca a Embalse Olmos atuais.

Evacuação de Montevidéu
Joaquin Suárez
Nessa noite, o delegado Miguel Barreiro decide evacuar a praça de Montevidéu. A guarnição, de cerca de 800 efetivos, era constituída por um batalhão de infantaria de Libertos, comandado por Rufino Bauzá e a Artilharia de guarnição, comandanda por Bonifacio Ramos, portenho de Buenos Aires. Com estes, muitos civis patriotas sairam também da cidade, como Joaquin Suárez e Santiago Serra. Tomavam a direção de Canelones e o Paso do Cuello, mais a norte.


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Arroio de Pando (Wikicomons)

Entre os arroios de Pando e Manga

A 19 de Dezembro, os portugueses já haviam passado Pando e estavam já a duas léguas portuguesas e meia da capital da banda Oriental (cerca de 15 km) quando recebem, por volta das dez horas da manhã, Agustin Estrada e o padre Dámaso Antonio Larrañaga, em representação do Cabildo da cidade, para anunciar a retirada da guarnição federal e negociar a entrega da cidade.

“(...) a duas legoas e meia de Monte Video se me apresentou huma Deputaçaõ do Cabildo daquella Cidade informando-me = que Barreiro Dellegado de Artigas evacuando a Praça no dia 18 tinha devolvido o Governo ao Cabildo, de quem os Diputados apresentaraõ-me o officio, que tenho a honra de trasmittir a V. Exca e trataraõ das condicoés com que se me offerecia tomar posse das Fortalezas e Cidade”. (Carlos Frederico Lecor ao Marquês de Aguiar, 27/1)
A primeira reunião do Cabildo

P. Damaso Antonio Larrañaga
Antes nesse mesmo dia,  o Cabildo havia reunido com Juan de Medina, Alcaide de 2.º voto, que presidiu a reunião em substituição de Juan José Duran, ausente em Buenos Aires), Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e o procurador Jeronimo Pio Bianqui. Ausente também em comissão em Buenos Aires, estava Juan F. Giró.

Ao contrário de Durán e Giró, que voltariam e aceitariam também a decisão do Cabildo, Joaquim Suárez, número dois de Miguel Barreiro,  e Santiago Serra, capitão do porto, haviam retirado com Miguel Barreiro e a guarnição.

De facto, Montevidéu quedava sem guarnição militar federal e as autoridades civis retiraram daí a sua conclusão, a única ação possível: a entrega das chaves da cidade, pedindo as condições mais favoráveis para o vecindário e o comércio.
Na primeira reunião, é o procurador geral síndico Jeronimo Pío Bianqui que toma a iniciativa, apresentando a moção para a entrega da cidade e renega a autoridade da Liga Federal e de José Artigas:

Jeronimo Pio Vianqui que tomando la palavra hizo mosion Sobre que medios devian adoptarse despues del avandono hecho dela fuerza armada que oprimia al Vecindario, representando los deseos por la paz y tranquilidad que havian sido constantemente manifestado por el Pueblo, q.e hasta ahora se vio forzado á sofocarlos y de consiguiente livres de aquella opresion se hallaban en el caso de declarar y demostrar publicamente si la violencia havía sido el motivo de Tolerar y ovedecer á Artigas.  

Após discussão, os capitulares decidem por unanimidade enviar uma carta ao tenente general Lecor, a entregar pelos dois mensageiros que haviam chegado ao campo:

"Ilustrísimo y Exmo Sor, el Cavildo de esta Ciudad de Montevideo acava de reasumir la autoridad politica y militar en ella desde que las tropas de su guarnicion la desampararon marchando á otros destinos. La municipalidad pues se halla á la Caveza de un Pueblo pacifico y absolutamen.te tranquilo que lejos de defenderse con el uzo de la fuerza, solo desea se avrebien los momentos de verse resguardado y seguro bajo la protexcion de las Armas Portuguezas, Al efecto dirije el Cavildo á V.E. la presente Diputacion premunida de amplios poderes paraque acordando con V.E. la forma y modo con q.e deve ocupar esta Plaza, y ratificadas las condiciones por esta Municipalidad pase V.E. á ocuparla con la fuerza de su man do p. satisfaccion comun. Aunque el Cavildo no ha sido enterado oficialmen.te dela intimacion hecha al ([Montevideo]) Govierno sobre el motivo de la Guerra há llegado no obstante á sus oidos q.e el obgeto de S. M. F. se reducia al restablecimiento del orden Publico para seguridad de sus fronteras, y que por lo demas garantia la seguridad individual de todos los avitantes de esta Provincia, el pleno goze de sus propiedades y poseciones rurales y hurbanas su[s]establecimientos Cientificos laudables usos y costumbres. Si á este veneficio se agregase el de livertar de contrivuciones á un Vecindario empobrecido y exauto, consideraría esta Ciudad (colmada su fortuna) ala sombra de tan alto protector. Tales podran ser las bases de las favorables condiciones que espera esta pacifica Ciudad se le dispensen. [...]”

Com a mesma mensagem e propósito, o Cabildo envia também uma delegação ao capitão de mar e guerra Conde Viana, D. João Manuel  de  Meneses, que comandava as forças navais sitiantes, formada por Jeronimo  Pio  Bianqui  y  o vizinho Francisco Xavier de Viana.

Uma Pequena Coluna

Na ocasião em que Larrañaga e Estrada se encontravam com Lecor, topou-se ao longe a noroeste uma pequena coluna, possivelmente retardatário da evacuação que havia começado na noite anterior.

Nesta mesma occasião se vio sobre a estrada de Cameloens [Canelones] uma pequena columna; era a guarnição da praça commandada por Barreiros [Miguel Barreiro], Delegado do General Artigas, que se retirava na direcção d’aquelle povo. O General em Chefe por mais instigado que fosse pelo General Pinto, não consentio que se perseguisse este pequeno Corpo, que de certo ficaria prisioneiro, visto ter [sic] quase todo de infantaria; e bem assim cahiria em nosso poder uma grande porção de carretas, que escoltava. Não faltou quem murmurasse da apathia com que o General em Chefe se mostrou n’esta occasião; e nos consta, que o General Silveira, e o Coronel Saldanha (os melhores officiaes da Divisão) também não levarão a bem este comportamento. 

O tenente Lobo Barreto, que elogia quase sempre Lecor, critica-o aqui com recurso à opinião dos melhores oficiais da DVR, questionando o seu espírito de iniciativa.

Até que ponto seria benéfico para Lecor ordenar um ataque à coluna de Barreiro na estrada para Canelones, não sabendo que outras tropas orientais poderiam estar nas proximidades, ao mesmo tempo em que a cidade de Montevidéu lhe pergunta os termos da sua rendição, através de Estrada e Larrañaga? A questão do general político ou do político general coloca-se de novo, apesar das acusações de falta de iniciativa serem uma constante ao longo dos anos entre muitos dos seus subordinados, inclusive os que apreciavam Lecor.

O então coronel Saldanha reflete meses depois sobre a falta de actividade e vigor do general:

[...] «não tem a actividade e o vigor que necessita um comandante em chefe, e por isso as nossas operações hão-de ser sempre lentas e pouco brilhantes e sabe Deus qual será o resultado.» (Carta de 28.11.1817, Saldanha ao irmão – Sacramento,em Belisário Pimenta)


A Segunda Reunião do Cabildo

Os emissários Estrada e Larrañaga, a Lecor, e Bianqui e Viana, ao Conde de Viana, retornaram e numa segunda reunião do Cabildo, provavelmente ao início da tarde, leu-se a proclamação que Lecor havia endereçado ao povo oriental, e novas condições que pretendiam manter o Cabildo e demais autoridades, assim como toda a normalidade no comércio e na indústria, principalmente charqueadas (como se dizia no Rio Grande) ou saladeros, de seca de carne, a maior exportação oriental.

CarlosFederico Le-cor Teniente General de los Exercitos de Su Magestad Fidelisima General en Gefe delas Tropas destinadas ala pasificacion dela margen isquierda ([hasta]) del Rio dela Plata, Comendador de las ordenes de S.  Bento de Aviz y dela Torre y Espada  &  &  &  -=  Pueblos de la  margen isquierda  del  Rio  dela  Plata  =  /  Los  repetidos  insultos  q.e  el caudillo  Artigas  ha  hecho  álos  havitantes  pasificos  de  buestro pais  y  álos  del  Rio  Grande;  la  prohivicion  absoluta  de  comunicaciones  entre  huesitos  Paysanos  y  los  Portugueses dela  frontera;  y  ultimamente  la  disposicion  obstil  en  q.e colocó  sus  Tropas  dirigiendolas  alas  imediaciones  del  Rio Pardo  son  hechos  muy  publicos,  y  mas  q.e  suficientes  para probar  las  intenciones  de  aquel  caudillo,  p."  demostrar  con ebidencia,  q.e  (ni)  entre  vosotros  puede  haver  estabilidad de  Govierno,  ni  seguridad  en  los  dominios  Portugueses mientras  el  os  oprima.  Vn  caudillo  q.°  apropiandose  buestra fuerza  armada  os  arrastro  con  ella  á  seguir  sus  opiniones: un  Caudillo  cuyo  comportamiento  ha  sido  hostil,  y equiboco,  menos  enlo  q.e  toca  á  sus  intereses  particulares, no  puede  hacer  la  fortuna  de  buestro  Paiz,  ni  huesitos  vecinos  pueden  fiarse  en  sus relaciones  politicas.  Terminemos  pues, havitantes  de  la  Provincia  de  Montevideo un estado de  insertidumbre  q.e  arruina buestro paiz  y  inquieta  la  frontera del Reyno  del Brasil.  Para  ebitar  tantos  males soy  yo  mandado  por  mi  Soberano  con  las Tropas  q .e  veis  /  y  otras  q.`  las siguen. Ellas  empero  no  marchan  á  conquistaros, ni arruinar buestras  propiedades;  bien  al contrario  su  unico  objeto  es  el de  sugetar al enemigo,  libraros  dela  opresion restableser buestra  tranquilidad,  abolir las contribuciones extrahordinarias  q.'  se  os huvieren  impuesto,  y  tratar  atodos con blandura,  á  esepsion  solamente  de  aquellos que  os  Acen perturbar de aqui adelante el sociego publico, Havitantes  q.°  amais  los intereses  de  buestro  paiz!  Permaneced tranquilos  en  buestras  casas.  Confiad  enlas promesas  q  .e  os  hago  en  nombre  de  mi Soberano;  el  me  constituye Gefe de un Govierno interino en esta provincia; y yo protesto por  el  honor  de  un  antiguo  Oficial, y  de  vasallo  fiel,  q.e  boy  á cumplir escrupulosamente  las  ordenes  q.`  resibi  del mismo  augusto  Señor,  y  q.e  todas  se dirigen á  buestra  felicidad.-  Carlos Federico Le-cor Comandante  en  Gefe
Que amas de esto apropuesta de los Señores diputados combenia en q.e permaneciese el establecim.to del cuerpo Capitular, q.e aquellos oficiales q.e se le presentasen a su entrada en la Plaza serian atendidos; exponiendo aserca dela  conserbacion de leyes usos costumbres y libertad del comercio q.e las ideas, de S.M.F. eran las mas liberales y beneficas á faboreser estos Pueblos, q.e esperaba de los generosos sentimientos de su soberano, q.e se le guardarian todos los fueros, excencions  y privilegios;  y q.e desde luego ibamos á gosar de la misma libertad de Comercio con todos los Pueblos, q.e la q.e disfrutaban sus vasallos del Brasil: q.e se trataria y acordaria algunas otras disposiciones q.e se jusgasen utiles al mejor bien y combeniencia del Pueblos, baxo cuya garantia acordo este Ayuntam.to

O Cabildo aprova a comunicação e as condições do comandante português e decide fazer a entrega formal da praça no dia seguinte:

Que  correspondiendo  los  deseos  de  aquel augusto  soberano á los votos publicos baxo la seguridad q.` el mismo Iltmo y  Exmo  S-ir General  havia  ofresido,  se  determinase  la entrega de  esta  Ciudad  y  se  admitiese  la p(r)oteccion  q.e  la  bondad  de S.M.F.  ofresia por  medio  del  expresado  Iltmo  y  Exmo  Sór General  Don  Carlos  Federico  Le-cor  á  estos  miserables paises  desolados  por  la  anarquia en  q.e  han  sido enbueltos  en  espacio  de  tres años.  En  esta  virtud  acordó  S.E. la forma en q .e devia resibirse en el dia inmediato, y siguiendo el  seremonial  acostumbrado  p.'  los Señores  Capitanes  Generales  de  Provincia combinieron  en  q.°  saliese  el  Ayuntamiento en  Cuerpo  con  los  demas  Tribunales  hasta la  puerta  dela  Ciudad  donde  haciendo entrega  delas  llaves  el  Caballero  Sindico Procurador  General  de  Ciudad  al  expresado Iltmo  y  Exmo  Sór General  sele  condujese baxo  de Palio  ala  Iglecia  Matriz,  donde se entonase un solemne Tedeun, y se diesen gracias al todo Poderoso  por  los  veneficios q.`  su  infinita  misericordia  se  dignaba dispensarnos

Saladero del Seco
É Lobo Barreto que nos informa que as tropas portuguesas ficam em Pando até à noite, em que recebem a acta da segunda reunião, e demais informação sobre a entrega formal da cidade. Depois vão para o Saladero del Seco, uma charqueada, mais a sul, próxima da praia de Buceo, onde a artilharia pesada foi desembarcada.
Depois de nos demorarmos neste ponto até quase á noite nos encaminhamos para o Saladeiro do Secco (a trez quartos de legoa da Praça) e ali acampamos com ordem de nos prepararmos a fazer nossa entrada em Montevidéo. (João da Cunha Lobo Barreto, p.12)
No dia seguinte, Lecor tomou posse da cidade de Montevidéu e tornou-se capitão general da Banda Oriental, em nome de sua Majestade Fidelíssima D. João VI.


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Biografias

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- LAMAS, Andrés, Coleccion de Memorias y Documentos para la Historia e la Jeografia de los Pueblos del Rio de la Plata, Tomo I, Montevideo, 1859.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII

Imagens
- Cabildo de Montevideo, Uruguai, File:CabildoMontevideo1.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:CabildoMontevideo1.jpg
- Arroio de Pando, File:Arroyo Pando at Pando.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arroyo_Pando_at_Pando.jpg

sábado, 14 de janeiro de 2017

Reunião: Pan de Azúcar, 15 de Janeiro de 1817


A 15 de Janeiro de 1817, toda a Divisão de Voluntários Reais se reúne finalmente em Pan de Azúcar, a 90 quilómetros de Montevidéu, sob o comando do tenente general Carlos Frederico Lecor. O general em chefe chega à povoação nesse dia, vindo de San Carlos. 

A coluna do Centro, comandada pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto, já lá estava desde o dia 13. Havia marchado, forte de 950 homens, pelo interior desde Melo, no Cerro Largo, permanentemente acossado pela divisão de Frutoso Rivera, especialmente em Cassupá, nos últimos dez dias de 1816, e no passo do arroio Santa Lucia, à entrada de vila de Minas. Silveira teve grandes dificuldades durante a marcha em comunicar com Lecor, à sua esquerda, o que permitiu a Rivera assediá-lo quase permanentemente, enquanto Silveira marcava passo, procurando ligar-se de novo, enquanto cumpria o seu papel de coluna flanqueadora, atraindo sobre si a atenção de Rivera e Otorgués, este último já lhes tendo cortado a retaguarda, como veremos.

Conforme já indicámos em postagens anteriores, Rivera estava a empregar táticas de guerrilha, atacando onde praticável e rapidamente retirando. Após a derrota em India Muerta, o comandante oriental perdeu a capacidade de tentar uma nova ação campal, pelo que fustigava a força de Silveira e a sua linha de abastecimento. 
A 8 de janeiro, o tenente coronel Vicente da Fonseca indica que tanto a vila de Melo como o forte de Santa Teresa haviam sido reocupados por Otorgués e Rivera respetivamente, pelo que a retaguarda desta coluna estava cortada das forças além da fronteira do Jaguarão e de Chuí, a sul da vila do Rio Grande.

O único caminho era o de Montevidéu e a estrada estava aberta. 


A Grande Reunião em Pan de Azucar

“Marchei de S. Carlos no dia 14, tendo dado ordem ao Exc. Conde de Viana, commandante da Esquadra de Sua Majestade para ir com os navios efectuar o desembarque da artilharia grossa, o Trem do sítio na Praia de Buceo [cerca de 6 km a leste de Montevidéu], e estreitar o bloqueio do porto de Montevidéu; e feito previamente um movimento da colunna do comando do Brigadeiro[Bernardo da] Silveira [Pinto] de Minas para Pan de Azúcar, pude iludir o innimigo com esta marcha a respeito do avançamento das outras três colunas do comando dos generais  Pinto,  Avilez e Pizarro, com as quais cheguei no dia 15 ao Campo do Pan de Azúcar[...].”(Carlos Frederico Lecor, 27 de janeiro)

Para percebermos o impacto deste dia, que hoje faz 200 anos, no povoado de Pán de Azucar, marcado geologicamente por um serro visível a grande distância de qualquer lado, é necessário numerar as forças presentes nesse dia.

Cerca de 950 homens da Coluna do Centro, comandados pelo brigadeiro Silveira, já a eles me referi, com 4 esquadrões de cavalaria da DVR, 2 companhias de infantaria assim como a Legião de Voluntários do Rio Grande (cavalaria), Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande e uma bataria de artilharia a cavalo da Corte (Rio de Janeiro) (vide Ordem de Batalha).

Com Lecor, chegam também neste dia as colunas restantes que vieram por Santa Teresa e Castillos: 

- A Vanguarda, vitoriosa em India Muerta, comandanda pelo marechal de campo (hoje, major general ou general de divisão) Sebastião Pinto de Araújo Correia, com cerca de 800 homens;
- A 1.ª Brigada de Voluntários Reais, comandada pelo brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa, apenas com 3 companhias destacadas na Vanguarda - uma de caçadores e duas de granadeiros (do 1.º Regimento de Infantaria), totalizando cerca de 1500 homens.
- E a 2.ª Brigada de Voluntários Reais, sem as mesmas companhias que a 1.ª, comandada pelo brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro, também com cerca de 1500 homens.

Estavam em Pan de Azucar cerca de 5000 militares de todas as armas, toda a Divisão de Voluntários Reais, unida pela primeira vez desde que embarcaram na Praia Grande (hoje, Niterói) no já distante junho de 1816, retratado por Debret.
Uma significativa porção desta força eram tropas da Capitania do Rio Grande, nomeadamente do comando da Fronteira do Jaguarão, do tenente general Manoel Marques de Sousa (este general, baseado na Vila do Rio Grande, tem inclusive o filho, major com o mesmo nome, a comandar dois esquadrões, uma da Legião do Rio Grande e outra da Legião de São Paulo, adstritos à Vanguarda)

Alguma artilharia, nomeadamente o trem de sítio, estava embarcada ainda, e seria desembarcada numa praia mais próxima de Montevidéu (Buceo). A Marinha não estava ociosa; a esquadra de apoio e transporte à DVR, do Chefe de Divisão Rodrigo José Ferreira Lobo, bloqueava já os portos de Montevidéu e Colónia, enquanto a divisão naval ligeira do Capitão de mar e guerra Conde de Viana [D. João Manuel  de Meneses] colaborava no esforço final para chegar a Montevidéu, antes de navegar para o rio Uruguai para cumprir a sua missão principal de atuar no enorme e importantíssimo rio, contrariando as várias batarias fixas orientais assim como a marinha oriental de Yusto Negros.

Cerro de Pan de Azúcar

Que General era Lecor?

Montevidéu está apenas a 2 dias de marcha, mas Lecor mobiliza todos os recursos para obter o prémio final, se possível sem recorrer a operações de sítio e combate. Esta é a natureza e o estilo de Lecor enquanto general, procurando sempre a via menos gravosa se possível, preservando a sua força. Alguns anos depois, na primeira fase da Guerra da Cisplatina, em 1825/6, Lecor foi apelidado de o segundo Fabio Cuntactor, o general romando que defrontou Aníbal, negando-lhe uma ação geral e preservando o seu exército. É notório que Lecor assimilou muito bem a influência de Wellington entre 1809 e 1814, e a importância do abastecimento e fundamentalmente uma preocupação com os homens, a sua mais importante “ferramenta”. 
Lecor é um general prudente e político, seja ofensivamente, com 5000 homens de Portugal e do Brasil, perante uma oposição oriental quase inexistente, como a situação que completa hoje 200 anos, seja, anos depois, na defensiva em 1826 após um péssimo 1825. Muitos dos seus subordinados, entre eles o coronel Saldanha, consideravam-no pouco dinâmico.

Na verdade, Lecor, mais do que o General em Chefe da DVR, era o Capitão Geral da província a haver, a Banda Oriental. Lecor era um general político, pois era de facto, e ao mesmo tempo, um general e um político. Não é de supor que o melhor fosse, na sua mente, antagonizar a sociedade civil que pretende governar em nome de D. João VI. Conforme já mostrámos noutras postagens, o exército oriental, nas várias divisões em operações na Banda Oriental (Artigas, Otorgués e Rivera) era composto por uma maioria de milícias, filhos da mesma sociedade civil que referi, com relativamente poucas unidades de linha (e quase todas na divisão de José Artigas). Conforme o viu decerto Lecor, todas as oportunidades para mostrar que os portugueses não pretendem ser os opressores eram para ser tomadas, mostrando que a pacificação era o objetivo, apelando assim a toda a comunidade mercantil de Montevidéu e Colónia, competidores do porto de Buenos Aires.

O tenente de caçadores João da Cunha Lobo Barreto faz a destrinça entre a disposição de Lecor e a do seu número dois, o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, comandante da vanguarda:

Era na verdade um contraste remarcável: o General em Chefe, preenchendo os fins da sua missão, desenvolvia toda a indulgência para com estes habitantes; ao mesmo tempo que o seu Ajudante General só respirava terror e vingança contra os indivíduos que defendiam o jugo estrangeiro sempre odioso ao verdadeiro patriota.


As Fronteiras e a Ocupação Portuguesa da Banda Oriental

A ocupação portuguesa pretende, agora em 1817, fazer aquilo que não se chegou a fazer em 1811/1812, assumir o governo de Montevidéu e da Banda Oriental, não só para cumprir a fronteira ideal ou natural, na perspetiva portuguesa, o Rio da Prata, ainda que não de forma permanente a longo prazo, mas estabelecer uma zona tampão que impossibilite que o republicanismo oriental e platense verta para o Brasil, da forma em que o fazia desde 1814.

Estudando todas estas campanhas, se nota o carácter fluído da fronteira luso-espanhola, agora luso-rioplatense, que tanto flutua nas segunda metade do século XVIII. Apenas na década de 1770 é que a Vila do Rio Grande fica permanentemente em mãos portuguesas e o Rio Pardo, a "tranqueira invicta", é onde o Brasil acaba (em 1816, ambos povoados estão bem na retaguarda já, longe dos combates, com o Rio Pardo estreando a primeira rua calcetada do Rio Grande). Só em 1801, é que as Missões Ocidentais são tomadas por uma centena de cavaleiros locais, para serem, 15 anos depois defendidas por um general (brigadeiro Francisco das Chagas Santos) que iniciou a sua carreira como oficial de infantaria com exercício de engenharia na demarcação dos limites entre os dois impérios, em 1781. 

Este carácter fluído é vital para perceber a dinâmica militar em jogo. Enforma todas as guerras que aqui tomaram lugar entre portugueses e espanhois desde 1680. Um vasto território desabitado, mesmo em 1817, onde quase todas as atuais localidades, algumas bem importantes como Alegrete ou Santana do Livramento, não existiam ainda ou estavam na sua infância, por vezes meros acampamentos.

JOSE ARTIGAS, por Juan Manuel Blanes (1884), Wikicommons

Esfuerzos sobre Esfuerzos: Artigas

Em Purificación, junto ao rio Uruguai, próximo de Salto, José Artigas reflete e lamenta a derrota em Catalán, em carta de 13 de janeiro, ao seu delegado em Montevidéu, Miguel Barreiro: “hemos de hacer esfuerzos sobre esfuerzos”. Tudo ficava mais complicado após Catalán, que o impede de atuar operacionalmente no teatro mais a oeste, junto ao rio Quaraí e à fronteira. Impede-o de poder auxiliar as forças orientais no leste e remete-o a uma postura defensiva.

Ya empezamos a sentir  la escases de armamento con las perdidas conseguintes  a las acciones dadas. Yo me hallo aqui reuniendo de nuevo el Exército, y con esperanzas de haver una defensa vigorosa.

A iniciativa está agora quase totalmente com os 5000 portugueses e brasileiros sob Lecor, em Pan de Azúcar. Frutoso Rivera pode apenas beliscar as forças portuguesas, observando-as, verificando o seu avanço sobre a capital da Banda Oriental.




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BIOGRAFIAS
- tenente general Carlos Frederico Lecor

[ + Biografias  ]

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ORDEM DE ‘BATALHA’
Forças portuguesas estacionadas em Pan de Azúcar, a 15 de janeiro de 1817

Divisão de Voluntários Reais, Exército de Portugal
+ Tropas da Capitania do Rio Grande, Exército do Brasil

GENERAL EM CHEFE
Tenente general Carlos Frederico Lecor

COLUNA DA VANGUARDA
Marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia
Ajudante General da DVR

cerca de 800 efetivos.

- 2 esquadrões de Cavalaria, DVR
Batalhão provisório: 4 companhias de granadeiros, DVR
(tenente coronel António José Claudino Pimentel)
- 1 obús, calibre 3
(1.º tenente Gabriel António de Franco)
- 2 companhias de caçadores, DVR (uma de cada batalhão)
(sargento mor Jerónimo Pereira de Vasconcelos e sargento mor Andrew McGregor) 
- 2 esquadrões de cavalaria,  Legião de Voluntários do Rio Grande + 2 esq de cavalaria da Legião de Tropas Ligeiras (de São Paulo) 
(sargento mor Manoel Marques de Sousa)

COLUNA DO CENTRO
Brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto
Quartel Mestre General da DVR

- 4 esquadrões de cavalaria, DVR (376 homens)
(Coronel António Feliciano Teles de Castro Aparício)
- Batalhão provisório de Infantaria DVR (194 homens, 2 companhias)
(sargento mor José Pedro de Mello, 1.º RI)
- Bataria, Companhia de Artilharia a Cavalo da Corte (65 homens)
(sargento mor Isidoro d’Almada e Castro)
- Legião de Voluntários do Rio Grande (120 homens)
- Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande (206 homens)

1.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa

1.º Regimento de Infantaria (c. 800 homens)
(coronel João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun )
1.º Batalhão de Caçadores (c. 600 homens)
(tenente coronel Manuel Jorge Rodrigues)

2.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa

2.º Regimento de Infantaria (c. 800 homens)
(coronel Francisco de Paula de Azeredo)
2.º Batalhão de Caçadores (c. 600 homens)
(tenente coronel Francisco de Paula Rosado)

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS

Imagens
- Cima del Cerro Pan de Azucar.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cima_del_Cerro_Pan_de_Azucar.jpg
- Cerro Pan de Azúcar Maldonado.JPG in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cerro_Pan_de_Az%C3%BAcar_Maldonado.JPG

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Batalha de Catalán: 4 de Janeiro de 1817


O capitão general da província do Rio Grande de S. Pedro, o marquês de Alegrete, tomando o comando do exército junto ao rio Ibirapuitã a 15 dezembro, decide enviar 600 homens demonstrar na área de Santana do Livramento, esperando que o engodo permitisse por um lado dividir as forças de José Artigas, na área de Arapey, a norte da atual localidade de Tacuarembó, e cobrisse o grosso do exército enquanto cruzava o rio Quaraí para dentro do território inimigo.

Quando, no dia de ano novo, cruza o Quaraí (rio que marca hoje como então a divisa) a sudeste das cidades de Quaraí e Artigas, Alegrete descobre por desertores orientais que Artigas tomou o engodo e que Latorre se havia destacado com 3400 homens para enfrentar a ameaça de Santana, ficando o chefe oriental em Arapey com 400 a 800 homens. Soube também que Latorre, se bem que havia sido enganado, o havia percebido rapidamente e iniciado a procura do exército principal português a oeste, com o propósito de o bater.



Acampado já junto ao rio Catalán, Alegrete envia Abreu e 600 homens para atacar o Potreiro de Arapey, onde Artigas estava, enquanto dispõe uma força de cavalaria de Dragões do Rio Pardo, na estrada entre Arapey e Santana, zona de onde vinha o grosso do exército oriental sob o comando de Andrés Latorre. 

[Leia mais sobre o ataque do Potreiro de Arapey, a 3 de janeiro de 1817]

A Batalha

O marquês do Alegrete, o comandante português, descreveu a batalha como a “primeira na historia Militar do Brazil”. O jefe de los orientales José Artigas ele mesmo escreveu que os orientais “hemos perdido una acción que debemos llorar eternamente”. 
O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto, que comandou os Dragões do Rio Pardo neste dia, reflete que Catalán foi “sem a menor dúvida, [...] a mais forte e mais gloriosa [acção], que têm tido as nossas Armas contra os Inimigos”.


De facto, Catalán foi a maior batalha da campanha de 1816, envolvendo cerca de 6000 homens nos dois lados e 13 peças de artilharia. Pode parecer pouco, face a outros conflitos, mas toda esta área era desabitada. Quase todas as cidades e vilas que lá existem hoje, não existiam então, e o teatro Oeste, em particular, era uma zona de fronteira numa fase muito precoce de colonização. Para comparação, Carumbé, que foi a segunda maior batalha no Oeste, teve 2000 participantes, apenas um terço de Catalán.


Leia também a II parte:

Batalha de Catalán (II): Ordem de batalha e baixas



Os Testemunhos

Devido à dimensão e importância da batalha de Catalán, encontramos um maior número de memorialistas que nos legaram o seu testemunho. Alguns deles falam ainda da ação do Potreiro de Arapey, pelo que deve ser visto em conjunto com a postagem acerca dessa ação, ocorrida no dia anterior e um seu prólogo.

O 5.º marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses, capitão general do Rio Grande de S. Pedro, comandante de todas as forças militares na capitania, ficou em Porto Alegre, de cama por causa da gota, e organizando os reforços ao exército comandando por Joaquim Xavier Curado. Contra a expetativa de muitos, mas decerto percebendo a monumentalidade do que estava apara acontecer, Alegrete tomou o comando do exército a 15 de Dezembro, e em pouco tempo tomou a iniciativa... e saiu vencedor. O seu testemunho é retirado da parte oficial ao secretário de estado dos negócios da guerra no Rio de Janeiro, o marquês de Aguiar, que estava já doente e que morreria no dia 24 de janeiro.

O tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca era o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, e de todo o exército. A sua carta a Vicente Ferrer da Silva Freire relata a batalha de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.
Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto comandou o Regimento de Dragões do Rio Pardo nesta batalha, como na de Carumbé. As suas memórias sobre a a batalha estão numa carta ao comandante do seu regimento, o brigadeiro Tomás da Costa Correia Rebelo e Silva e apesar de se cingirem mais à atuação dos Dragões, dão uma perspetiva de quem combateu, algo sempre tão ausente na historiografia militar portuguesa desta altura.

De José Artigas, chefe oriental, que creio não ter estado em Catalán, embora não o tenha por certo, ficaram algumas observações numa carta a Miguel Barreiro, então governador de Montevidéu. Dá-nos pormenores sobre a constituição das forças orientais e a sua visão sobre o seu próprio exército.

Porque as memórias são tantas e não obedecem às mesmas formas de contar a história, decidi colocar excertos de cada testemunho, sequencialmente e dessa forma intercalando as vozes, de maneira a permitir uma leitura mais fluída destas fontes e perceber melhor como decorreu esta batalha e os seus muitos pormenores. Espero honrar assim as memórias destas bravos homens e facilitar a vida ao caríssimo leitor.
Assim, cada extrato estará identificado com um dos seguintes consoante seja ao início ou fim de cada extrato extrato:

[A] ou [Alegrete] – [P] ou [Pereira Pinto] – [V] ou [Vicente da Fonseca] – [ARTIGAS] ou [Artigas] 
[Há apenas um extrato de Artigas, no fim]



A BATALHA DE CATALÁN EM TESTEMUNHOS

nota: uma légua portuguesa antiga são cerca de 6600 metros.

Antecedentes

[15/12]
[A] Foi em o dia 15 de Dezembro que o estado da minha saúde me permitiu reunir-me ao Exército que se achava na margem direita do Rio Ibirapuitã, e o inimigo na distância de 16 léguas ocupava uma posição extremamente forte na margem do rio Arapey. 
[Alegrete] 

[V] Tendo o Ex.º Snr. Marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos Bombeiros que os Insurgentes se reuniam com grande força e que ([....]) pretendiam ir atacar-nos  naquele lugar,  
[Vicente da Fonseca]



Diversão do brigadeiro Rebelo e Silva

[16-20  de dezembro]
[A] Informaram-me porém os meus espias que havendo recebido reforços projectava atacar-me, nada convinha tanto como trazê-lo a uma acção geral, e separá-lo da posição que ocupava. Para o conseguir  tentei-o com forças inferiores fazendo marchar 500 homens de cavalaria comandados pelo Brigadeiro Tomás da Costa Correia  Rebelo e Silva para os serros de Santa Anna ordenando-lhe que depois de se fazer ver dos espias, e partidas do inimigo se reunisse no Exército ocultando a direção da sua marcha. 
[Alegrete]

[25/12]
Andres Latorre


A Coluna principal portuguesa

[A] Enquanto se executava este movimento eu marchava com o Exército para o Passo do Faria no Rio Quaraí, 8  léguas abaixo dos serros de Santa Anna para o qual ponto acreditando o inimigo a nossa marcha se dirigiu com força de 3400 homens debaixo do comando do Major General [Andrés] La Torre. Artigas porém ficou na sua posição de Arapey com uma escolta de 400 homens,  reserva de  munições, cavalos e bagagens.  
[Alegrete]

[V] [O marquês de Alegrete] resolveu, que deviamos encontrá-los, e consiguintemente levantámos o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí;  
[Vicente da Fonseca]



Descobertas as posições orientais

[(28/12) - 1/1]
[A] Imediatamente à minha chegada a Quaraí fui completamente informado das disposições do inimigo, e procurei adiantar-me para cortar a comunicação de Artigas com o seu Exército o que consegui sendo esta posição vantajosa assim para esperar o inimigo como para tentar um golpe de mão sobre Artigas, 
[Alegrete]

[31/12] [V] passámos este Arroio [Quaraí] no dia 31, [1/1] / e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos Bombeiros agarrado 3 Bombeiros do Inimigo, soubémos destes que Artigas tinha o seu Quartel General no Lugár denominado o Potreiro nas Imediaçoes do Arapey, aonde somente existião 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar ([daqui]) deste  lugar o Major General Latorre com perto de quatro mil homens, e duas Pesas de  Calibre 4, a este tempo já os nossos Espias descobriram Bombeiros, e pequenas partidas do Inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, [2/1] levantamos o Campo no dia 2, e avançámos 4 legoas e meia, e acampámos na  Margem direita do Arroio Catalan; a posição de nosso Campo era elevada e propria para poder a Artilharia operar por todos os lados tinhamos, o Flanco ([esquerdo]) direito apoiádo por huma Sanga, a frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo Arroio ainda que fraco por ser cortado por varias partes;  
[Vicente da Fonseca]




José de Abreu ataca o Potrero de Arapey

[2/1 - NOITE]
[A] / com este fim puz em marcha na noite do dia 2 o Tenente Coronel José de Abreu com 600 homens, a infantaria, cavalaria, e 2 peças de artilharia, 
 [Alegrete]

[V] / neste mesmo dia fez o Snr. Marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo Tenente Coronel de Milicias José de Abreu composta de 500 homens (Milicianos de Entre Rios, algumas Guerrilhas de  Paisanos, 100 homens  de Infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 Peças de Calibre 3 Comandadas pelo Tenente Luz formam os mencionados 500 homens); sahiram  ao pór do sól com ordem de marchar toda a noite para  na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado Potreiro, 
[Vicente da Fonseca]

[A] [...] e fiz marchar o Regimento de Dragoens a postarse na estrada de Arapey para Santa Anna observando os movimentos do inimigo por este lado, ou reforçando o Tenente Coronel Abreu se o necessitasse.  
[Alegrete]



Batalha de Arapey

[ARAPEY]
[3/1 - AMANHECER]
[A] Ao amanhecer do dia 3 atacou este Tenente Coronel [José de Abreu] com o seu costumado valor a posição de Artigas, e depois de algum fogo carregou com a baioneta e Espada, e foi levada a posição escapando-se porém Artigas, a perda do inimigo consistiu em 80 mortos, alguns prisioneiros, grande quantidade de apetrechos de guerra, inutilizando-se os que não se podiam  transportar, 1400 cavalos. 
[Alegrete]

[V] / mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas Guardas avançadas do Inimigo, e pode Artigas escapar-se precipitadamente deixando a sua Carretilha, e até mesmo o seu Ponche, escaparam muitas famílias, e a maior parte da Guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência; Artigas tinha escolhido um lugar para seu Quartel General aonde a Cavalaria não podia operar, e por isso somente a Artilharia e Infantaria de S. Paulo, e poucos de Cavalaria a pé decidiram desta Acção, (ouvimos os tiros de Artilharia, e seriam 8 horas da manhã.  A perda do Inimigo consistiu em setenta e tantos mortos incluso um Ajudante, 6 Prisioneiros, ficou em nosso poder a Carretilha de Artigas, 1500 Cavalos, e algumas munições; a nossa perda consistiu em dois Soldados mortos da Infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma Infantaria sendo 2 gravemente. 
[Vicente da Fonseca]



Retorno de Abreu ao acampamento

[A] Em o mesmo dia executando o que lhe tinha ordenado reuniu-se ao Exército o Tenente Coronel Abreu, e juntamente o Regimento de Dragões. 
[Alegrete]

[V] O valente Tenente Coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos Prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os Portuguezes, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no Potreiro, com esta noticia (apesar de não ter a nossa Tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o Tenente Coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as Ordens necessárias, e foram, 
[Vicente da Fonseca]



Reação de Latorre à diversão portuguesa

[A] Conhecendo o inimigo o movimento falso que tinha feito sobre o Serro de Santa Anna, passou para a margem direita do Quaraí para seguir-nos, e cumprir com a ordem positiva de atacar-nos, em o dia 3 tornou a passar para a esquerda do Quaraí, tomou uma posição na distância de 3 léguas da nossa.
[4/1 - AMANHECER]
Em o dia 4 ao amanhecer deram parte os postos avançados da proximidade do inimigo que não tardou em apresentar-se apoiando os flancos com artilharia, e cobrindo os seus movimentos com grandes número de lanceiros de Índios Charruas, Minuanos e Baicurús, e em esta ordem atacou impetuosamente toda a linha.  
[Alegrete]




Movimentações e ataque oriental

[4/1 – 0300H]
[V] / que às três horas de manhã estaria toda a Cavalaria montada, e toda a mais Tropa debaixo de Armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo d'Armas ás horas determinadas, porém só a Cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões, e Milicianos não tinham pegado Cavalos; e se não fosse a Artilharia, e o valor da nossa Tropa, o Inimigo teria conseguido uma completa surpresa. 
[4/1 – 0430H] Eram  4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a Alvorada, quando um chefe de Guerrilhas, que guardava uma nossa Cavalhada, que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, pressentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a Cavalhada que pode, eu estava na Bataria do centro que é composta de 4 Obuses, conversando com o major Pitta que é o  comandante desta divisão de Artilharia, principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por toda a Coxilha que estava pela nossa frente, flanco esquerdo e retaguarda. A nossa Tropa dispôs-se imediatamente para entrar em acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com  grande desafogo, [4/1 – c. 0435H] a este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o Snr. Marquês na frente da Tropa montado  a Cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o Inimigo já estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de Artilharia, o que se executou prontamente, 
[Vicente da Fonseca]

[A] / Pretendia o inimigo pela superioridade numérica das suas forças desenvolver-se para voltear-nos, julguei por isso necessário que a esquerda da linha se limitasse por alguns momentos à defensiva, 
[Alegrete]



Papel da Artilharia e linha oriental

[V] / e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a Artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo Major Pitta, e composta de 4 Obuses que lançaram Granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente  António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas em um Corpo de Reserva que guardava a cavalhada, o Inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de Artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em hum reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro.
A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em numero de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada, 
[Vicente da Fonseca]




Contracarga de cavalaria na ala direita portuguesa

[A] / e dirigindo-me do centro à direita mandei atacar o flanco esquerdo do inimigo, a carga pelo Regimento de Dragões, um esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo, e o ataque de baioneta da mesma infantaria da Legião são dignos de maiores elogios, atrevendo-me a dizer que nem uma Tropa do mundo pode exceder à intrepidez com que foi executada esta manobra, [...] 
[Alegrete]

[P] Os esquadrões de Dragões de meu comando, para onde carregou a cavalaria intervalada com minuanos, teve de ter muita constância, para poder resistir-lhe, o primeiro quarto do primeiro esquadrão foi repelido, pela grossa força do inimigo que sobre ele carregou; porém num momento, se reuniu, e atacando com o valor de costume, deu princípio à derrota do inimigo. 
[Pereira Pinto]




Carga de Infantaria de São Paulo

[V] / a este mesmo tempo os Lanceiros Charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o Snr. Marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os Charruas, mandou imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de Baioneta Calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de  pedras que mais parecia voarem do que correr; levando por diante uma poeira a infantaria Inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo a queima roupa
[Vicente da Fonseca]




Fracasso da carga oriental de cavalaria

[ARTIGAS] [...] Se presentó la acción sin necesidad, pero executada ya estabamos triunfantes habiendo penetrado su Campam.to roto su linea, tomado la Artilleria y todo en confusión, la Cavallería del costado izquierdo q.e era Correntina y gente del Entre Ríos q.e eran en números de 800 homb.s desampararon la línea de avance de solo 60 Portug.s q.e parece increible. 
[Artigas]




O comando de Alegrete

[P] É mais que tudo memorável, a Bravura com que o nosso Exmo. Marquês, exposto ao forte fogo se põem a frente do Exercito, mandado operar os corpos conforme as circunstâncias. Ele foi quem deu a Dragões a voz d'Avançar, e é finalmente achado onde  porque é preciso. Em suma nada tem que invejar dos grandes generais.  
[Pereira Pinto]


Carga de José de Abreu

[A] [...] habil, e valerosamente secundada por uma carga feita pelo Tenente Coronel Abreu à testa de um esquadrão de milícias d'Entre Rios.  
[Alegrete]

[V] Nesta mesma ocasião avançou o bravo, e incomparável Tenente Coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram Milicianos de Entre  Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas Guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes por a Cavalaria Inimiga em  vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma  grande mortandade até a distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos Cavalos: 
[Vicente da Fonseca]

[A] Consegui voltear o inimigo ainda empenhado contra a nossa esquerda, e fazendo um fogo o mais vivo de artilharia, e mosquetaria continuava na teima de voltear-nos por este lado; o segundo batalhão de infantaria da Legião de São Paulo, e artilharia do mesmo corpo, o Regimento de Milícias do Rio Pardo, e um esquadrão de Milícias de Porto Alegre sustentaram valerosamente a posição.
O tenente coronel Joaquim Mariano [Galvão de Moura] com 100 homens de Infanteria ocupou um pequeno bosque que cobria a retaguarda da nossa esquerda, elevando eu ali uma do esquadrão da minha guarda, e um esquadrão da cavalaria de São Paulo, ordenei que esta cavalaria  atacasse protegida pela infantaria, foi este ataque simultâneo com todas as tropas da esquerda pôs em fuga o inimigo em todas as direções.
Mandei imediatamente o tenente coronel Abreu a perseguir o inimigo o que executou na distância de 3 léguas. 
[Alegrete]




Ala esquerda portuguesa e vitória

[V] / enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os  Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar Cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria Inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depor as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.  
[4/1 – 1145H]
O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O Snr. Marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande coragem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o Snr. Marquês dava mil vivas a Sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a Tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  




Os vivos e os mortos

[4/1 – TARDE] À tarde o Snr. Marquês assistiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo Snr. Marquês, Snr. Tenente General Curado, Brigadeiros, Estado maior de S. Ex.ª  &.  &.  
[4-5/1] Demorámo-nos no Campo da Acção o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa [D. Margarida de Almeida] tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as feridas. 
[6/1] No dia 6 avançamos 3 léguas para baixo do mesmo Arroio Catalan para fugir da podridão que já infeccionava o Campo, e aqui nos conservámos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha. 
[Vicente da Fonseca]

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Todas as memórias anteriores estão publicadas no Archivo Artigas, de acesso gratuito na internet, mas facilitamos aqui a sua localização, se desejar aprofundar as questões.

- Marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses: Archivo Artigas, volume 33, pp. 20-23, Documento n.º 809
- Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca: Archivo Artigas, volume 33, pp. 14-19, Documento n.º 808
- Capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto: Archivo Artigas, volume 33, pp. 9-12, Documento n.º 805
- José Artigas: Archivo Artigas, volume 33, pp. 26-27, Documento n.º 812

MAPAS E CRÓQUIS DA BATALHA
(I) “Plano de la batalla dada en 4 de Enero de 1817 en el sitio llamado Catalán”
(II)  Cap. J. de O. Paes Lemos, “Plano da Batalha de Catalán em 1817”, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. cart259249
(III) Baseada na anterior, cróquis da batalha in: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (volume 1), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984
(IV)  “Batalha de Catalán” (croquis), in: LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845 (GoogleLivros)

BIBLIOGRAFIA
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328. (GoogleLivros)
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (3 vv), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 34.

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CONTINUA EM: